"Quase 50% dos executivos que atendemos querem investir ativamente em deals que estavam travados"

Felipe Miglioli, sócio da EY, vê otimismo no mercado transacional, mas alerta para fragilidades

Por Gabriela Freire Valente - redação@lexisnexis.com.br

Com as expectativas de retomada do crescimento econômico e de melhoras no ambiente de negócios brasileiro, o mercado de fusões e aquisições de empresas (M&A) espera a retomada de operações e planos de investimentos que acabaram frustrados em 2018. Embora as reformas macroeconômicas ainda sejam aguardadas para a definição das estratégias transacionais, Felipe Miglioli, sócio da consultoria EY, estima que cerca de 50% dos deals travados no ano passado devem avançar ainda neste ano.

O levantamento Global Confidence Barometer, feito pela EY, mostra que 84% dos executivos do brasileiros está atento a oportunidades de M&A. Para além da busca por oportunidades de aquisição, o estudo mostra que 78% desses dirigentes têm feito revisões frequentes no portfólio de suas empresas a fim de identificar possível alvos de desinvestimentos. “Se voltarmos 10 anos atrás, não era comum que os executivos olhassem para seus portfólios para desinvestir”, observa Miglioli. “Isso é uma postura mais estratégica que a gente enxerga que os executivos começam a ter aqui no Brasil”.

Apesar de o sócio da EY enxergar amadurecimento no comportamento dos executivos do país, ele observa que o mercado nacional ainda precisa superar obstáculos significativos. Ele aponta fragilidades regulatórias, divergências na precificação de ativos e carências na estrutura do mercado de títulos de dívida como alguns dos gargalos para o fomento de operações de M&A no país.

 

Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Lexis 360:

Lexis 360 — O quanto as eleições do ano passado e a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) na disputa presidencial afetou o apetite por M&A?

Felipe Miglioli — A pesquisa [Global Confidence Barometer] já reflete em um certo grau o que a gente está vivendo hoje, com o Bolsonaro como presidente do país. Há um grau de otimismo no mercado que é muito bom, mas existem uma série de desafios que o país precisa superar e reformas para serem feitas. Hoje, nas potenciais transações de entrada no país em que estamos envolvidos, as operações estão muito mais efetivas. No ano passado, houve negócios travados e que voltaram a caminhar agora. Isso por fatores relacionados à capacidade do governo de aprovar as reformas que tem que ser feitas, colocar o país no trilho do crescimento de novo. Naturalmente, você tem uma retomada da economia e em setores como consumo, setores de infraestrutura e real state.

Qual é a dimensão de negócios que estavam travados e podem andar em 2019?

Felipe Miglioli — É difícil responder isso, mas o meu termômetro, que tem base nas operações que assessoramos, quase 50% dos executivos que atendemos estão dispostos em investir de forma ativa em operações que estavam em curso e não foram para frente. Essas não são operações novas.

O levantamento indica um volume alto tanto de executivos em busca de operações de M&A quando de executivos que afirmam avaliar os portfólios de suas empresas para eventuais desinvestimentos. Esses dados indicam uma que a busca por compradores é maior do que a busca por ativos?

Felipe Miglioli — São dois pontos. Primeiro, temos um volume de empresários que estão buscando ativamente um M&A para aquisições de fato. Por outro lado, temos executivos olhando seu portfólio de forma muito mais racional, para fim de capital alocado, mas para fins de desinvestimentos. O que é curioso é que, se a gente volta 10 anos atrás, não era comum que os executivos olhassem para seus portfólios para desinvestir. Eles olhavam para o que eles tinham, mas não para fazer uma operação. Então, isso é uma postura mais estratégica que a gente enxerga que os executivos começam a ter aqui no Brasil.

Há uma expectativa de movimentação dos fundos de private equity para este ano. Essa percepção tem a ver com esse olhar estratégico para os desinvestimentos?

Felipe Miglioli — Quando falamos de um desinvestimento de um ativo do portfólio, falamos de empresas de grande porte. Um fundo de private equity ser um comprador. A ajuda em criação de valor desse modelo de fundo é muito mais efetiva quando se olha para empresas que vão passar um processo de consolidação ou empresas que não têm acesso ao capital de forma estruturada. Eles também são um ator importante no circuito de aquisições de ativos que estão sendo desinvestidos no mercado, mas não são necessariamente o grande ator de desinvestimentos. Quando a gente fala de um investimento, de um ativo ou de uma compra de grande porte, eu tenho visto muito mais empresas ou investidores estratégicos que enxergam uma oportunidade ou aumentar sua exposição naquele determinado seguimento ou de entrar no mercado brasileiro. O que temos observado para os fundos de private equity é uma busca por empresas de médio porte ou familiares.

Temos visto muitas operações domésticas no mercado de M&A e estamos saindo de uma fase de crise econômica. Há interesse no financiamento de operações via mercado de capitais, com emissão de títulos de dívida, por exemplo?

Felipe Miglioli — De uma forma bem ampla, a grande maioria dos empresários brasileiros estavam muito mais focados em entregar rentabilidade e reduzir cursos. Alguns que não conseguiram fazer isso caminharam para a recuperação judicial. Já as multinacionais, as empresas de grande porte, capitalizadas, passaram a olhar também para o mercado externo. Comparado ao mercado de capitais de grandes países, o nosso não é estruturado. O mercado de dívidas no Brasil ainda não é um mercado ideal. Isso fez com que muitas empresas passassem por problemas de liquidez, perda de capital. Esse é o grande problema. Quem tem o benefício disso são empresas multinacionais, que têm empresas aqui no Brasil.  

O levantamento menciona risco regulatório e a dificuldade de encontrar qualidade nos ativos como os principais gargalos para concluir uma operação. O quanto esses fatores afetam o apetite para risco dos investidores?

Felipe Miglioli — Vemos um grande desentendimento entre comprador e vendedor no acerto de preços. É muito comum uma empresa ter uma operação de determinado tamanho que se deteriorou, nos últimos anos, em termos de rentabilidade, de faturamento. Os empresários, às vezes, têm a mesma noção de valuation de sete anos atrás, mas a empresa não vale mais aquilo. Ela não tem a mesma perspectiva de valor. Quando a questão são riscos em potencial, a forma de tratar isso no momento de precificação é com mecanismos de performance e estrutura do negócio, como cláusulas de earn out ou alguma opção de venda no futuro para o vendedor. Os advogados envolvidos devem ter visto um crescimento nos últimos anos do uso do mecanismo de earn out em transações.

Veremos essas soluções com mais frequência em 2019?

Felipe Miglioli — Eu acho que sim, porque o país tem uma estrutura muito grande e há uma incerteza em relação à a capacidade de o governo realizar o que deve ser implementado. Isso afeta a forma como o mercado vê valor nos negócios locais. Então, existe um grau de incerteza, de relatividade no mercado. Creio que esses mecanismos serão usados com mais intensidade. O preço de venda total do negócio está cada vez mais exposto aos riscos e aumenta a proporção do earn out nessa conta. No passado, o earn out era quase 50% do preço do negócio, hoje eu vejo o earn out representar mais do que isso. E isso é diretamente proporcional ao tempo do comprador e do vendedor.

Acesso restrito. Faça seu login ou cadastre-se agora.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes Lexis 360

Cadastre-se gratuitamente

para ter acesso por 7 dias

ou

Cadastre-se gratuitamente e tenha acesso ao Lexis 360

Campo obrigatório.
Campo obrigatório.
Campo obrigatório.
Campo obrigatório.
Campo obrigatório.
Campo obrigatório.
Campo obrigatório.