Com expectativa de reformas em 2019, empresas brasileiras voltam a programar IPOs

Operações retidas pelo período de cautela pré-eleitoral podem alcançar R$ 70 bilhões

Cerca de 30 empresas devem ir ao mercado nos próximos 18 meses
Cerca de 30 empresas devem ir ao mercado nos próximos 18 meses
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Nas últimas três semanas, após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), os ânimos de empresários e investidores nacionais e estrangeiros, que vinham expressando cautela, começaram a mudar. Algumas empresas já retomaram seus planos de crescimento, seja com operações de M&A e injeções de investimentos em companhias e setores estratégicos ou com lançamentos de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) no mercado. Para aproveitar o mês de dezembro, o banco mineiro BMG e a empresa de tecnologia da informação Tivit protocolaram suas ofertas antes mesmo do resultado do segundo turno das eleições.

Com o cenário favorável, analistas estimam que um pelotão de 30 empresas deve ir ao mercado nos próximos 18 meses, levando em conta aquelas que já registraram seu pedido na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Esse grupo tem potencial para movimentar cerca de R$ 55 bilhões. Na esteira das ofertas, estima-se ainda que 15 subsequentes possam arrecadar aproximadamente R$ 70 bilhões.

Segundo Gustavo Rugani,  sócio da área de mercado de capitais do Machado Meyer, o número de empresas que pretende abrir capital impressiona e faz lembrar 2006, ano em que 26 ofertas foram realizadas. O patamar, no entanto, não supera o de 2007, quando 64 operações captaram R$ 55,1 bilhões. Rugani alerta para os riscos que esse pipeline robusto de ofertas retidas pode desencadear. “Tenho dúvidas se haverá apetite dos investidores para todas elas. Naturalmente, algumas ficarão para trás”, acrescentou.

Neste ano, diversas operações foram abandonadas no meio do caminho. Somente NotreDame Intermédica, Hapvida e Banco Inter emplacaram suas ofertas com sucesso e movimentaram R$ 6,8 bilhões tanto em emissões primárias quanto em distribuições secundárias de ativos. Conforme dados da Refinitiv, fornecedora mundial de dados de mercado de capitais e de infraestrutura, 34 corporações levantaram US$ 12,8 bilhões com IPOs em 2017.

Na esteira

A abertura de capital do BMG envolve ofertas primária (de ações novas) e secundária (de papéis detidos pelos sócios atuais) de ações. Já a Tivit retoma o processo que foi interrompido em setembro do ano passado no dia da precificação da oferta, por conta da baixa demanda dos investidores pelos papéis. Sua operação envolve apenas uma oferta secundária de ações. Procuradas pelo Lexis 360, as companhias não comentaram sobre o processo de abertura de capital por estarem em período de silêncio.

“Esses IPOs [de BMG e Tivit] terão sucesso e vão ditar o ciclo dos que vierem. As operações vão ser como um termômetro para o mercado. Se forem extremamente bem-sucedidas, vão provocar um bom resultado futuro”, diz Felipe Bevilacqua, sócio da consultoria Levante, especializada em investimentos.  

O pedido mais recente de registro de companhia aberta feito à CVM foi o da empresa paranaense BBM Logística, na terça-feira (13), segundo informações da autarquia. No ano passado, a companhia recebeu um investimento do fundo de private equity Stratus.

A distribuidora de energia Light segue comprometida com seu follow on, disse a superintendente de relações com investidores da Light, Fernanda Crespo, durante teleconferência na terça (13). Controlada pela espanhola Iberdrola, a holding Neoenergia pode também tentar realizar uma oferta no primeiro trimestre de 2019, após duas operações sem sucesso terem sido suspensas, porque os investidores não estavam dispostos a pagar o valor exigido pelos acionistas.

Ações e reações
O que está em xeque para que essas transações via mercado de capitais aconteçam é a capacidade do novo governo brasileiro de engatar as pautas econômica, jurídica e regulatória no primeiro semestre. Eduardo Dotta, professor do curso de LLM em direito do mercado financeiro e de capitais no Insper, ressalta que várias aberturas de capital estão sendo desengavetadas pelos principais escritórios, assessorias e bancos de investimento, porque o cenário macroeconômico está mais favorável.

“Com a sinalização um pouco mais positiva do governo eleito de que existe uma tendência para fazer a reforma da Previdência e outras necessárias, o investidor perceberá que há um comprometimento com a estabilidade econômica. Isso vai gerar apetite”, afirmou. Segundo o professor, se o Brasil se preparar adequadamente e fizer a lição de casa, será “a bola da vez” no ingresso de capitais.

Fabíola Cavalcanti, sócia da área de mercado de capitais do TozziniFreire Advogados, acredita que enquanto houver uma lua de mel com o governo Bolsonaro, o mercado terá um “boom” de IPOs. Na visão da advogada, tudo caminha para uma agenda econômica positiva em um período de renovação de concessões ferroviárias, novas rodadas de leilões de aeroportos, expectativa de uma retomada do setor de óleo e gás no Rio de Janeiro, entre outras operações. Porém, é necessário que o mercado de capitais se torne uma fonte de captação primária de recursos.  

“O que me preocupa é a alta expectativa do povo como um todo. Se houver uma quebra dela, sem uma solução no curto prazo, teremos um desgaste talvez até o fim dessa lua de mel”, disse a sócia do TozziniFreire. Sem confiança popular, o governo se enfraquece e, consequentemente, o investidor estrangeiro recua e não entra no país, temendo insegurança jurídica. Dentre os principais setores que devem atrair a atenção dos investidores locais e estrangeiros estão o de infraestrutura, os ligados ao varejo e consumo, além do financeiro, conforme Fabíola.

Caso o novo governo consiga levar a cabo seus planos econômicos, um amplo programa de reformas e privatizações é aguardado. Grande parte das empresas interessadas em adquirir os ativos que serão vendidos precisarão captar recursos – o que deve movimentar o mercado de capitais para além dos IPOs.  “Quem vai comprar essas estatais ou os ativos são, provavelmente, empresas de capital aberto ou de grande porte, como Equatorial, Energisa, CCR, Ecorodovias, Santos Brasil, Wilson Sons e Braskem. As companhias vão precisar de recursos, seja via dívida ou equity”, diz Felipe Bevilacqua, da Levante.

Registros de ofertas fora do país

Três companhias nacionais preferiram realizar suas ofertas fora do país neste ano. A empresa brasileira de meios de pagamento Stone abriu seu capital em outubro e levantou cerca de US$ 1,2 bilhão na bolsa americana Nasdaq. A PagSeguro, sua concorrente direta, foi a primeira neste ano a fazer uma oferta na bolsa de Nova York em janeiro, angariando cerca de US$ 2,6 bilhões. Em setembro, a Arco Educação chegou à Nasdaq avaliada em US$ 850 milhões e atingiu o preço máximo por ação da faixa indicativa ao encerrar o primeiro dia do pregão em alta de 34,6%.

Esse movimento, no entanto, é visto com “preocupação” para o presidente da B3, Gilson Finkelsztain. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, ele disse que as escolhas por bolsas estrangeiras tendem a acontecer com mais frequência entre as empresas de tecnologia. O executivo contou que a B3 incentiva a dupla listagem, no país e no exterior, mas é necessário que o mercado financeiro se desenvolva mais.

Segundo Guilherme Sampaio, diretor de transações corporativas e líder de IPOs da Ernst Young (EY), um IPO cross-border para um modelo de negócios disruptivo, como o de uma empresa de tecnologia, continua sendo uma alternativa, porque os investidores estrangeiros são mais experientes para analisar esse tipo de negócio. “Eu acredito que o Brasil ainda tem uma curva de aprendizado e vai chegar lá. Teremos em breve grandes ou pequenas ofertas no país no setor. Por enquanto, essas empresas estão vendo a abertura de capital nos Estados Unidos como uma alternativa mais viável para o modelo de negócios que possuem”, argumentou.

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