Mercado de maconha medicinal começa a se consolidar no exterior e pode estar formando uma ‘bolha verde’

Foram mais de 145 deals em 2018 nos EUA e no Canadá; no Brasil, regulação ainda engatinha

Por Isabella Miranda* - redação@lexisnexis.com.br
Fachada da Tweed, uma das subsidiárias da Canopy Growth, comprada por US$ 4 bilhões
Fachada da Tweed, uma das subsidiárias da Canopy Growth, comprada por US$ 4 bilhões
Shutterstock

Uma planta poderosa, capaz de reduzir drasticamente convulsões em pacientes epiléticos, melhorar o apetite e ansiedade dos clinicamente depressivos e combater dores crônicas de reumatismos e doenças associadas às juntas, e também de movimentar negócios bilionários, mercados e ações, gerando empregos e lucros. A cannabis sativa, para além do mercado (ainda ilegal em muitos países) de seu uso recreativo, tem atraído cada vez mais investidores, que estão empenhando capital no crescente mercado de produtos à base de canabidiol, um dos princípios ativos da maconha e de uma planta da mesma família, o cânhamo. Esse princípio ativo, mais conhecido como CBD, é utilizado em diferentes preparos terapêuticos, como óleos analgésicos para reumatismos, por exemplo.

Somente no primeiro semestre de 2018, mais de 145 operações de M&A foram anunciadas nos Estados Unidos e no Canadá nesse setor, segundo dados da Viridian Capital Advisors, companhia especializada em acompanhar o mercado e investimentos no ramo da cannabis, e do Marijuana Business Daily (MJ Biz), veículo especializado nos negócios que envolvem maconha no mundo inteiro. Foi um aumento de mais de 45% quando se compara com os 79 deals fechados no primeiro semestre de 2017. Em relação aos valores, os negócios entre as companhias americanas e canadenses movimentaram cerca de US$ 4 bilhões nos primeiros seis meses de 2018 - contra US$ 1,3 bilhão no mesmo período de 2017.

As operações das empresas do ramo estão intensas, especialmente no Canadá: a Aurora Cannabis, que em 2017 faturou US$ 13,8 milhões, comprou sua concorrente MedReleaf, por US$ 2,5 bilhões em maio de 2018. A Cannabis Strategic comprou a marca Fitamins CBD para distribuir seus produtos em uma cadeia com mais de 600 atacadistas no mercado asiático-americano.

Um exemplo desse crescimento foi a operação feita pela Constellation Brands, dona da cerveja Corona, que comprou, em 15 de agosto, cerca de 38% do controle da canadense Canopy Growth, dona da marca Tweed, maior produtora global de maconha legalizada e a primeira a abrir seu capital. Pagando cerca de US$ 37,25 por ação, a Constellation desembolsou cerca de US$ 4 bilhões para comprar a produtora. 

 O grande número de deals se deve, principalmente, à legalização da maconha medicinal e recreativa em alguns estados dos EUA. Na Califórnia a liberação para uso medicinal aconteceu em 1996 sendo ampliada para uso recreativo em 2016. Nos últimos cinco anos, Vermont, Nevada, Colorado, Washington, Washington DC, Oregon, Alaska, Maine e Massachusetts liberaram alguma modalidade de uso do produto. As vendas no varejo de maconha medicinal e recreativa nos Estados Unidos devem atingir entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões até o fim deste ano - um aumento de quase 50% em relação a 2017 - e subir até US$ 22 bilhões até 2022, conforme apuração do MJBiz. No caso canadense, a recente liberação do cultivo medicinal do Canadá e, principalmente, da legalização do cultivo e uso recreativo, que passará a valer no país a partir de 17 outubro, são os principais propulsores. As leis para regularização ainda estão sendo criadas e sancionadas e, apesar de variarem de província para província, já apresentam um resultado comercial significativo.

Mercado diluído

Para alguns analistas, a movimentação desse setor não passa de uma “bolha verde”, que pode explodir a qualquer momento. Como a maconha era ilegal no Canadá, as instituições financeiras não podem, até o momento, oferecer serviços financeiros e bancários para os negócios baseados em cannabis, na mesma medida em que os oferecem para outras empresas. Isso deu somente uma opção para as companhias: compra e venda em bolsas de valores, através de transações que envolvem a venda de ações ordinárias, debêntures conversíveis, opções de ações e/ou garantias a um investidor ou grupo de investidores para levantar capital.

O que acontece, na visão dos analistas, é que, como a produção e o fluxo de caixa operacional foram menores que o esperado, praticamente todas as empresas do ramo tiveram de recorrer às bolsas para angariar fundos para seus projetos de expansão de capacidade, que podem custar mais de US $ 100 milhões. Isso resultou em um aumento significativo no volume de ações em circulação, o que deveria resultar em um declínio no preço por ação. Mas o que acontece nos últimos meses é justamente o oposto: as companhias têm registrado preços por ação cada vez maiores. Paralelamente, elas têm promovido uma grande diluição acionária, o que pode, eventualmente, derrubar virtualmente o preço das ações. É a receita de uma bolha.

Outros aspecto é o fato de poucos países do mundo terem legalizado o plantio, transporte, venda, importação e outras atividades relacionadas a maconha, o que tornaria excedente o vertiginoso crescimento. Com a legalização da maconha recreativa em outubro, no Canadá, haveria um estoque excessivo que poderia, em primeiro momento, ser absorvido pela população, mas que não justificaria as projeções de venda ou lucro para os próximos anos, já que a grande disponibilidade do produto poderia baixar os preços a um valor irrisório.

Potencial brasileiro

O Brasil, com alta incidência de sol e clima propício para o cultivo, considera a plantação ilegal, e as poucas leis que visam a legalização do plantio, mesmo que medicinal, estão engatinhando. Devido à proibição, pessoas que dependem dos produtos para tratar doenças recorrem à Justiça para poder comprar os remédios importados. Três famílias brasileiras conseguiram, no final de 2016, habeas corpus preventivos para o cultivo da planta em casa, para o tratamento de doenças crônicas, sem a possibilidade de serem presas.

O número de pacientes que receberam autorizações para uso e importação dos remédios à base de CBD, em 2015, foi de 850 - passando, no ano seguinte, para 872, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apurados pelo Lexis360. O número saltou para 2090 aprovações, em 2017. Até julho deste ano, o órgão autorizou 1.594 pacientes a importar medicamentos canábicos, o que vai tornar 2018, caso o ritmo prossiga, o ano com maior número de autorizações desde que a liberação para importar os remédios começou.

O órgão também informou que “a autorização é concedida em caráter excepcional exclusivamente para pessoa física, para tratamento de saúde, e sob a responsabilidade do médico e do paciente” e também que “a autorização de importação concedida não avalia questões técnicas relacionadas ao produto, como eficácia e segurança, pois não são produtos submetidos à avaliação da Anvisa por meio do processo de registro de medicamento.” 

O preço mínimo de cada um dos produtos é de cerca de US$ 70, excluindo taxas de transporte e importação, de acordo com a BBC Brasil. Produtos como o Mevatyl, que são mais caros, custam entre R$ 2.200 e R$ 2.800, contendo três frascos de 10 ml por caixa. "Isso dá um mercado de milhões de dólares que poderiam estar indo pra indústria brasileira", disse Gabriel Elias, o coordenador de Relações Institucionais da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD), rede de organizações não governamentais, coletivos e especialistas que busca debater e promover políticas de drogas, para a BBC.

Caso a maconha medicinal seja legalizada no Brasil, o número de pacientes nos primeiros 36 meses de vendas poderia atingir 959 mil, com uma lista de condições restritivas de qualificação (ou seja, uma que não inclui dor crônica), e cerca de 4 milhões com uma lista mais extensa de condições que incluam dor crônica.  Um programa que aceite essa condição poderia gerar mais de R$ 4,7 bilhões (US$ 1,4 bilhão) em receita anual para o país, segundo estimativas do New Frontier Data, empresa especializada em big data no ramo internacional de maconha.  

Na pauta

Alguns projetos para a legalização do cultivo terapêutico tramitam no Congresso Nacional. Em 20 de junho, uma audiência pública debateu os trâmites do Projeto de Lei (PL) 514/2017, de autoria da senadora Marta Suplicy (MDB), que atualmente se encontra com a relatora para ter seu texto ajustado e reapresentado. A data da nova audiência ainda não foi divulgada. Corre também na Câmara dos Deputados o PL 10549/2018, de autoria do deputado federal Paulo Teixeira (PT), que requere o livre cultivo doméstico, com limitação do número de plantas e das gramas que podem ser produzidas por domicílio, provendo somente o necessário para o desenvolvimento do remédio.

Procurada pelo Lexis360, acerca do envolvimento da Anvisa com os projetos de legalização, o órgão informou que “tem recebido as demandas e realizado discussões internas sobre os pleitos apresentados, as quais se encontram em curso”.

*Com supervisão de Flávia Tavares

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