A viagem no tempo de Lobo

José Orlando Lobo revisita sua história e compara a profundidade dos contratos do passado com a complexidade dos negócios atuais

Por Flávia Tavares - redação@lexisnexis.com.br
Zé Orlando, em seu escritório. Casos difíceis não se comparam a sua maior aventura: a produção do Lobini
Zé Orlando, em seu escritório. Casos difíceis não se comparam a sua maior aventura: a produção do Lobini
Divulgação

A sala quadrangular, de vidros chão-teto, na aorta do sistema financeiro de São Paulo, a Nova Faria Lima, concilia amplitude e aconchego. Há poltronas e cadeiras de designers renomados, imponentes, mas confortáveis. A modernidade nos equipamentos de mídia está ladeada da simplicidade de um cafezinho fresco. O escritório é a cara de seu dono. Logo que entra, José Orlando Lobo despeja seu ritmado sotaque e ocupa o espaço com sua hospitalidade. A autoridade de um dos maiores nomes de M&A do Brasil não sufoca sua habilidade de contador de casos. Ao contrário, elas se retroalimentam. O sócio-fundador do escritório Lobo de Rizzo flana sobre sua própria história que, não raro, coincide com a do mercado de fusões e aquisições no país. E convida o ouvinte a passear com ele por essa linha do tempo, em que resgata a profundidade dos contratos discutidos longamente na década de 1980 e contrasta com a complexidade dos negócios atuais.

Lobo, ou Zé Orlando, como seus funcionários e pares o chamam, capitaneou deals de grande porte nos escritórios por onde passou e no seu próprio, fundado em 2007. Hoje, reconhece que as transações estão intrinsicamente mais complexas, com implicações e players múltiplos e prazos cada vez menores para a conclusão – o que se reflete num aumento do número de discussões judiciais em torno dos negócios. Evitá-las exige cada vez mais conhecimento técnico dos advogados. “A experiência é algo essencial. Nada substitui anos dela. Mas também precisamos de conhecimento, mesmo básico, de áreas conexas, como contabilidade, princípios de avaliação de empresas, de análise financeira.”

Empreendedor e curioso, Zé Orlando anda “se divertindo um pouquinho” como árbitro. Expandiu a atuação de arbitragem de seu escritório, de olho nas contendas inevitáveis de negócios tão enredados, e vestiu, ele próprio, um chapéu diferente, mais próximo ao do juiz. “Isso contribui demais para nossa atividade como advogados, já que temos a oportunidade de observar, não só como os outros, mas como nós mesmos acabamos raciocinando quando estamos no papel de julgadores.” Zé Orlando considera que o mercado de arbitragem está maduro no Brasil, com um bom número de árbitros profissionais, bons procedimentos e boas decisões. “É raro um contrato, seja joint venture ou outra operação, que não contenha uma cláusula arbitral. Mesmo que as arbitragens demorem dois anos, é muito menos do que a disputa judicial que pode se alongar por dez anos.”

Mas Zé Orlando está longe de largar seu core business. E declara-se otimista. “O Brasil surpreende a gente. A área de transações continua com boa saúde. Temos uma preocupação com a volatilidade do mercado, mas o fato é que se o private equity resolve não investir tanto, os investidores estratégicos resolvem investir, e vice-versa. Na crise, os preços das empresas tendem a ficar mais baixos e muita gente vê nisso uma oportunidade.” O desafio está na área de infraestrutura. Os contratos quase sempre envolvem governo, ou seja, incertezas e riscos. Lobo não se amedronta. Está em plena expansão de seu escritório – começou com 30, hoje conta com 125 advogados. Coisa de quem testemunhou, do gargarejo, a construção do mercado brasileiro de M&A e de suas áreas correlatas.

No começo, isso tudo era mato

Zé Orlando é nascido em Moçambique e cidadão português. "Na década de 1960, para Portugal, quem nascia nas colônias recebia um carimbo na carteirinha: 'cidadão de segunda classe'. Então, sou um português de segunda", ri-se no estofado de couro da enorme poltrona caramelo. A independência de Moçambique foi oficializada apenas dois meses depois da primeira eleição livre para a Assembleia Constituinte pós-Revolução dos Cravos, em Portugal. A família de Zé Orlando preferiu o Brasil a esse caos político. Aos 15 anos, Zé Orlando desembarcava por aqui. Pouco depois, ingressaria no Largo São Francisco, para seguir os passos profissionais do pai. "Nunca pensei em ser outra coisa que não advogado. Com seis ou sete anos, eu já sabia o que seria."

Zé Orlando ainda guarda o que sobrou da biblioteca jurídica de seu pai, que atuou sempre em casos de contencioso. "São livros deliciosos. Há uma série de obras de direito marítimo, porque meu pai fez uma série de casos nessa área, envolvendo o porto de Lourenço Marques, o nome antigo de Maputo. Tenho também livros de processo penal, civil, uma variedade enorme." O orgulho que o advogado sente de sua ascendência é palpável. A vocação para a área em que atuaria por toda a vida também. Zé Orlando lembra da primeira entrevista que fez para uma vaga de estágio, no Pinheiro Neto. Nela, já indicou que gostaria de trabalhar em societário. Havia uma área do escritório chamada “negociações empresariais”. Eram tempos mais simples.

Como júnior, Zé Orlando estudava vorazmente. Ascendeu a pleno e passou a auxiliar os sócios no que chama de “filé mignon do que fazemos”: casos complexos de fusões e aquisições. O primeiro de que se lembra foi uma joint venture entre a canadense Massey Ferguson, fabricante de tratores, com o grupo Iochpe, do Rio Grande do Sul, para produzir máquinas no país. Era 1983. Três anos mais tarde, já como sócio do então Goulart Penteado Iervolino Lefosse, Zé Orlando, com pouco menos de 30 anos, passou a coordenar casos de fusões e aquisições como uma série de negócios de expansão da Kodak. “Na época, as transações demoravam mais tempo. A preocupação com assuntos como direito ambiental, concorrencial era menor. Os envolvidos se preocupavam mais com a profundidade dos contratos. A tendência era cobrir as questões mais problemáticas. Por isso, as transações resultavam em muito menos discussões”, lembra Zé Orlando.

Em contrapartida, ele ressalta a “bizarrice” que era a presença do Estado nas transações. “Hoje existem mais regulações, mas naquela época tudo sofria uma influência do governo.” Um dos instrumentos de influência que Zé Orlando cita era o Conselho Interministerial de Preços, o CIP, que existiu entre 1968 e 1991. Para reajustar o preço dos carros, por exemplo, em tempos de inflação descontrolada, a indústria automobilística tinha de ir a Brasília, pedir autorização do governo. Esse tipo de ingerência afetava, naturalmente, a (in)segurança jurídica para o desenvolvimento do mercado de M&A.

Suor, insônia e solidão

 O timing dos contratos exigia, também, saúde dos advogados. Com um sorriso deslizando nos lábios, Zé Orlando rememora o caso da compra de uma fábrica pela Kodak, em 1987. No dia seguinte ao closing, uma série de financiamentos e dívidas venceriam. Zé Orlando acordou num domingo, às 5 horas da manhã, e só foi dormir na terça-feira, à meia-noite, depois do jantar de comemoração pelo fechamento da transação. E, então, a razão para aquele sorriso é revelada. “Nós ficamos viciados nessa rotina. Se isso não acontece de tempos em tempos sentimos falta. Gostamos de contar essas histórias. É difícil, tem um  desgaste físico, mas nós sentimos que estamos vivos.”

Esse nível de estresse precede, a um alto custo, respostas criativas. “Em um caso, fomos ao Rio, eu e um sócio meu, e precisávamos arrumar uma solução para uma determinada parte da transação. A solução não vinha. Ela apareceu dentro do elevador, subindo para a sala do presidente da empresa. Dois minutos antes de entrarmos na sala”, conta Zé Orlando, ajeitando os suspensórios e, novamente, deixando escapar um regozijo de quem senta sobre um segredo precioso. Ele, então, emenda mais um caso de sucesso. Está engrenado.

Saltando para 1995, Zé Orlando revisita a imensa pressão sob a qual estava quando participou da desassociação da Autolatina, empresa formada por Ford e Volkswagen oito anos antes. O advogado ficou responsável por lidar com as responsabilidades de cada uma das partes com relação a contingências geradas naquele período e, consequentemente, tinha de lidar com contingências anteriores a aqueles oito anos também. Eram empresas gigantescas – proporcionais ao compromisso de Zé Orlando no caso. “Fiquei vários dias isolado, em casa. Minha proposta ficou enorme, complexa, e foi rapidamente aprovada por ambas as partes. Acho que ninguém teve coragem de ler aquilo tudo para reprovar ou aprovar.” Zé Orlando ri.

Ele se recusa, porém, a cravar que esse tenha sido o mais difícil de sua carreira. Afinal, ele ainda tem nos arquivos o caso de Coca-Cola e Kaiser. “Acho que foi a maior transação que houve no Brasil no ano de 2002. Foi um caso longo, houve vários candidatos a comprar a empresa, o que fez o caso se estender.” Contratualmente, diz Zé Orlando, o deal foi simples. Relevante foi a solução apresentada por ele para que o negócio saísse. “Fizemos a holding da Kaiser vender sua subsidiária operacional. Isso foi fundamental para resolver uma questão societária que havia com um dos sócios na época. Tenho orgulho disso, pois aqueles que estavam na transação, até o momento em que eu entrei, não tinham enxergado essa saída.” Mesmo já sendo um advogado renomado, sua solução era tão simples que deixou os envolvidos incrédulos. Seguro de si, Zé Orlando firmou parceiras com os professores José Bulhões Pedreira (formulador da Lei das S.A.) e Modesto Carvalhosa, que consolidaram e confirmaram aquela estrutura.

Em alta velocidade

A viagem na linha do tempo de Zé Orlando Lobo poderia ser conduzida a bordo de um Lobini. Foi essa sua maior aventura: embarcar numa sociedade para fabricação de carros esportivos de luxo no Brasil – assim batizados pela combinação dos nomes dos sócios (Lobo e Fábio Birolini). Um Lobini chegou a custar R$ 170 mil e apenas uma dezena era produzida por ano. “Antes de querer ser advogado, eu já gostava de carros. As adrenalinas são parecidas. Até corri por um tempo, mas meu talento como advogado sombreou meu talento como piloto.” A Lobini não existe mais. Zé Orlando vendeu sua parte em 2006 e a empresa encerrou as atividades em 2012.  

Zé Orlando não se arrepende do empreendimento. Mas o classifica, entre risos, de “maior loucura que já fiz”, um ato de muita “coragem, que resulta da ignorância”. Ele não dá detalhes de seu M&A de saída da Lobini. Com muito humor, diz apenas que, embora seu advogado tenha tentado de todas as formas, protege-lo na transação, como empresário ele apenas dizia “deixa isso pra lá”. “Fiz exatamente o contrário como cliente do que faço como advogado.” De lembrança da peripécia, Zé Orlando guarda apenas um exemplar do Lobini. Azul-fusca, a cor escolhida por sua mulher.

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